segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

29/01, dia da visibilidade trans

Ontem, dia 29 de janeiro, foi comemorado o dia nacional da Visibilidade Trans, e escrevo esse post atendendo ao chamado de blogagem coletiva das Blogueiras Feministas sobre esse tema.

Aproveitei a data para ir assistir o filme Tomboy (França, 2011), sobre um menino que nasceu em corpo de menina. Um filme ensolarado, suave, com atores ótimos, fotografia maravilhosa, que trata da diferença entre sexo e gênero com uma leveza incrível. Eu pensei que iria sair do cinema super consternada, pensativa, pela densidade do tema, mas não; fui ficar consternada e pensativa depois.

Procurando por informações, sinopses, histórico e fotos dos atores/atrizes, encontrei essa sinopse aqui:
Laure (Zoé Héran) é uma garota de dez anos que sofre dificuldades no relacionamento com seus pais. Quando a família se muda para uma nova vizinhança nos subúrbios de Paris, ela subitamente decide se vestir como um garoto e faz amizades com os meninos da região. O que antes era apenas um pretexto para conseguir amigos, acaba se transformando em algo mais sério.
Não há nada no filme que indique que existe dificuldade de relacionamento com os pais; muito pelo contrário, eu vi a família como muito amorosa e unida. A personagem não decide "subitamente" se vestir como menino: pela quantidade de roupas "masculinas" que ela tem, é lógico que Laure/Mikael gostava de se vestir assim há tempos, e que esse gosto era aceito pelos pais. Sobre se vestir de menino ser "apenas um pretexto para conseguir amigos", não sei se fico indignada pelo absurdo/preconceito da afirmação (se vestindo de menina el@ não conseguiria fazer amigos?) ou se penso que a pessoa que escreveu a resenha simplesmente não viu o filme, ou... Se alguém realmente interpreta as coisas dessa forma. É doloroso, mas não é difícil acreditar que deve ter quem tenha saído do cinema com nojinho e acreditando que Laure/Mikael é uma criança problemática, que foi malcriada, que "só quer chamar a atenção", e coisas assim.

Para o senso comum machista, ter nascido um indivíduo do sexo feminino (com útero, ovários, vagina) necessariamente acarreta diferenças no caráter, no comportamento, nas habilidades, em relação a nascer indivíduo do sexo masculino (com pênis e escroto), e a ligação entre o sexo e os esteriótipos de gênero, e a imposição do suposto papel de cada gênero no mundo, são automáticas. Para muitos, os trans só existem nas zonas de prostituição, esse é o único papel possível e aceitável para el@s. E além do preconceito individual, da família e da sociedade civil, ainda há o preconceito institucionalizado, que passa pela autorização que o Estado ainda dá para os trans serem hostilizados, junto com outros grupos minoritários, em nome de uma suposta liberdade de expressão e de culto; à pouca importância dada pela mídia e pela polícia aos crimes de discriminação, assassinatos, e agressões cometidas contra el@s; até ao não cumprimento de leis que garantiriam a dignidade para todos os cidadãos, como construção e acesso a políticas públicas de saúde específicas para suas necessidades.

Voltando do cinema com a minha amiga, ela disse "não sei porque as pessoas se preocupam com essas coisas tão pequenas", referindo-se, é claro, ao preconceito, de como seria mais simples se apenas aceitássemos os  outros como indivíduos. Pensei que sentir-se diferente do seu corpo, quando tudo ao seu redor te cobra entrar na caixinha pré-definida para sua genitália, deve ser um sofrimento individual muito grande, até mesmo se sua família te apóia, mesmo se você tem bons amigos. É a sociedade inteira te contrariando. Deve ser fácil concluir que é mesmo você que está errado (se quando você está fora de um padrão "pequeno", como o padrão de beleza, isso já pode gerar um sofrimento enorme... ). Por isso é necessário o dia, a conscientização de que esses problemas existem, e de que impor um esteriótipo a essas pessoas, diminuindo a importância da questão, não é mais satisfatório para nós como sociedade. 

Termino o post com um vídeo lindo da última campanha da Somos, que me inspirou para . Boa semana!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Tristango

Tem dias em que eu me vejo mergulhada num mundo que não parece meu. Cercada das melhores pessoas, das melhores chances, mas sem confiar se vou poder mantê-las perto, se consigo aproveitar sem destruir, se tudo não vai azedar... Ora me vejo paralisada pela minha pequenez perante as possibilidades, ora me vejo voando para tentar encher de amor tudo ao mesmo tempo agora. É uma felicidade infeliz, bipolar, melancólica. Mas a alternativa a isso é o aprisionamento, é o estanque, o "e se...". Então me sinto no direito de aproveitar toda essa angústia, que é uma angústia boa, como diz meu amor...





Tem Libertango! quarta-feira dia 25, às 20h, na sala Luiz Cosme da Casa de Cultura Mário Quintana, e  quinta dia 26 na Casa da Música, mesmo horário. 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ironias da vida (aviso de férias)

Eis que, por uma linda ironia da vida, no dia seguinte à minha colação de grau, que é dia 7 agora, vou viajar para fazer um curso de férias, que terminará apenas no dia 22 de janeiro.
O estudo, o violino, as aulas, os recitais, os concertos, a cerveja, o Xis Bebum do Circulu's ou os docinhos do calçadão de Pelotas provavelmente ocuparão todo meu tempo e energia, e isso significa 99% de chance de não aparecerem novos posts aqui no blog por pelo menos duas semanas.

O que posso fazer por você hoje é sugerir um documentário que saiu agorinha: Prova de Artista.


um documentário sobre audicionistas e audições de orquestras Brasil afora. Rotina, expectativas, o amor à arte, a renúncia, a solidão do estudo. Às vezes dá muita angústia, às vezes dá muita esperança e esquenta o peito. Um mergulho no mundo profissional da música de concerto. Muito bom, e pode ser assistido gratuitamente no site (http://provadeartista.com/) durante todo o mês de janeiro.


Se estiver em Porto Alegre, desligue o computador e trate de ir na Mostra de Dança Verão e no Porto Verão Alegre. Seus neurônios agradecem.
Você também pode ir ao MARGS, onde está acontecendo uma exposição com obras de artistAs brasileiras, apoiada pelo Coletivo Feminino Plural!



Muito bom janeiro para ti e para os teus, leitor! 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Rituais de fim de ano são desculpas para organizar a cabeça

Pelo menos os meus são! Os teus não?
Tirei um recesso de duas semanas aqui do blog, e de boa parte das outras coisas internéticas, para isso (tá, eu sei que deveria ter avisado antes, mas agora estou de volta :) ).

Não sou religiosa nem supersticiosa, mas desde que resolvi ser adulta, aos 18 anos, tenho meu ritual de fim de ano. Meus pais são religiosos praticantes e com muita fé: meu pai, católico, e minha mãe espírita. Ambos são pessoas muito criticas, que nunca impuseram a religião e nenhum dogma a mim e a minha irmã,  mas vivem com muita intensidade as datas cristãs, e de uma maneira bem peculiar nossa. Então, na minha família, tudo é motivo para ficar introspectivo e refletir, e adoro essa característica nossa (mas também adoro ter namorados e amigos que têm famílias que se reúnem para celebrar, porque eu posso me divertir celebrando uma ou duas datas e fugir de todas as outras - meu negócio é diferente). Não somos muito ligados a dar e receber presentes e as festas de Natal e Ano Novo sempre foram bem íntimas, com quatro ou cinco pessoas na casa, no máximo - pelo menos desde que eu me lembre: sei que antes de eu nascer e quando eu era bebê, era diferente.
Então, no recesso entre o Natal e o Ano-Novo, desço TUDO de todos os armários, revejo todos os arquivos, todas as roupas, toda a papelada, jogo no lixo o que é lixo, separo coisas que podem ser doadas ou úteis para outras pessoas, e organizo em arquivos e faço catálogo de tudo o que eu acho que vou precisar um dia. O ano novo é realmente novo, com a sensação de não ter nada "entupindo" minha liberdade, pelo menos não dentro do quarto, e espaço sobrando nos armários para receber o que vier ao longo do ano que chega. Na primeira vez, quando revi toda a minha infância e adolescência, a faxina durou dois dias; nos anos seguintes durava um turno ou dois, no máximo. E como tenho que envolver música em tudo, sempre escolho um álbum pra ficar tocando no repeat até a coisa acabar. Nem preciso dizer o quanto essas músicas acabam sendo significativas para mim, né.

Esse ano, boa parte da faxina do fim de ano já foi feita em novembro, porque minha casa foi reformada e eu não tive escolha além de organizar a bagunça para não perder coisas importantes. E a trilha da vez foi Buena Vista Social Club, álbum homônimo, de 1990. Pra fazer tudo dançando. Será também a trilha da faxina final de agora, certamente. E o seu ritual, qual é?

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Introspectiva em recuperação - a Música

Fim de semestre normalmente é tempo de provas. Mas por algum motivo, meus queridos professores -todos - resolveram pedir trabalhos finais ao invés de provas. E alguns desses trabalhos, para meu desespero, envolvem apresentações para a classe. Minha última apresentação foi semana passada, para uma multidão de dez pessoas. Gaguejei. Me perdi em slide de três linhas. Fiquei respirando curto por algum tempo antes e depois de subir no "palco". Mas foi. Saiu.
Um dos comentários da banca, depois de eu terminar, foi algo parecido com "Como é bom a gente que é músico poder se apresentar sem ter aquela sensação de palco". Só se for pra ti, cara-pálida.

Naquele momento pensei como é engraçado odiar falar em público mas ao mesmo tempo não ter grandes problemas em tocar para público. Meu recital de graduação foi maravilhoso, errei algumas coisas como qualquer estudante, mas curti cada minuto de música, e realmente adorei me comunicar com as pessoas que estavam lá. Aí comecei a pensar sobre o efeito que a música tem na autoconfiança - sei que existe muita literatura sobre musicoterapia, mas eu confesso que não li muito a respeito não. Vou escrever aqui algumas reflexões que fiz depois da situação lá de cima, porque acho que dá pra relacionar com várias outras áreas profissionais e também com coisas do dia, da convivência e do autoconhecimento.

C. Leko Machado. Bagé, 2010.  Essa mão é a minha mão :)
- As pessoas em geral não vão a um espetáculo para procurar notas certas ou erradas, e nem conhecem a música que você vai tocar tão a fundo quanto você. Então, quando você está no palco, não interessa tanto se a nota que você acabou de tocar estava certa ou não. Como o palco é o lugar e a hora crucial onde coisas que se pode errar coisas que nunca se errou antes, encarar isso é fazer cara de paisagem e ir adiante, porque o público quer espetáculo, e o espetáculo não inclui a sua opinião sobre o que foi feito. Por isso acho a arte performática ao mesmo tempo que é extremamente egocêntrica (você sobe no palco porque tem algo a dizer, enquanto o público recebe tudo passivamente) é um ato de extrema renúncia, porque você tem que apresentar como puramente seu o que às vezes não é exatamente seu porque você gostaria que fosse diferente.
Assim também é quando se improvisa. A maior necessidade pra saber improvisar é aceitar o primeiro impulso (o famoso feeling), ter consciência de que ele vem do que você sabe, do que você estudou, e não do além, e principalmente entender que não existe certo e errado na criação, e sim caminhos diferentes. Não quer dizer que você tem que gostar de tudo o que faz, mas sim que certas coisas são simplesmente para serem aceitas.

- Quando você estuda algum instrumento ou canto, estuda por tabela o seu corpo, como funcionam os músculos, a coordenação, os movimentos que ele faz, e acaba ficando muito mais consciente de si e consequentemente da forma com que os outros te vêem. Não é à toa que tem tanto músico lindo, hehehe. No começo todo mundo reluta, acha estranho ver filme de si tocando, ou tocar na frente do espelho. Mas esse aprendizado normalmente acaba melhorando a auto-imagem das pessoas, pelo que eu sei de mim e dos meus alunos. E acho que é uma coisa que só com música a pessoa se convence a fazer (a menos que exista alguém que treina discurso na frente do espelho que nem o bonequinho do The Sims 1, e eu não saiba! Sei lá! hehehehe).

Então, serviu pra alguma reflexão? Espero que sim! :)